Na terra dos queijos de origem, gaúchos buscam na Itália o caminho para valorizar o colonial

Por Marina Klein Telles

Um grupo de produtores e técnicos do Rio Grande do Sul está vivendo, neste momento, uma imersão na Itália para entender como os europeus transformaram tradição em valor de mercado. A Missão Técnica Internacional sobre Indicação Geográfica do Queijo Colonial, organizada pelo Sebrae RS, ocorre até o dia 4 de maio e passa por regiões como Trento, Bergamo e Parma, reunindo queijeiros, especialistas e representantes de instituições em busca de um objetivo comum: avançar na construção da Indicação Geográfica (IG) do queijo colonial da Serra Gaúcha.

Mais do que visitar queijarias ou conhecer novos sabores, a experiência tem outro foco – menos óbvio, mas estratégico. O grupo está mergulhando no funcionamento dos consórcios italianos, estruturas que organizam produtores, definem regras, garantem qualidade e sustentam, ao longo do tempo, a reputação dos chamados queijos de origem protegida.

“A Itália não foi escolhida por acaso. Eles são mestres em proteger e valorizar produtos por meio das Indicações Geográficas. Entender como esses consórcios funcionam, como se organizam e se posicionam no mercado, é talvez o maior ganho que podemos ter”, explica a especialista de Leite e Derivados do Sebrae RS, Aline Balbinotto.

Ao longo da missão, os participantes já passaram por encontros técnicos e visitas que reforçam um conceito central: o produto, sozinho, não sustenta valor. É o território que o legitima. Em uma das agendas, dedicada a queijos como o Asiago DOP e o Puzzone di Moena DOP, o grupo discutiu justamente como a origem se transforma em ativo econômico, cultural e reputacional.

“A percepção mais forte que estamos consolidando vai muito além da técnica de produção. Os queijos mais bem-sucedidos daqui não vendem apenas um produto, mas um território inteiro, com história, identidade e conexão cultural”, afirma Aline.

Esse entendimento dialoga diretamente com o momento vivido no Rio Grande do Sul. O queijo colonial, embora não exista na Itália com esse nome – nasce da adaptação dos imigrantes no Brasil –, carrega um valor simbólico e econômico importante. “Ele é um patrimônio cultural que sustenta famílias, preserva a história e representa a força da agricultura familiar gaúcha”, completa a especialista.

Para quem vive o dia a dia da produção, os aprendizados já começam a ganhar forma prática. O produtor Sérgio Lorezon, da Queijaria Beija-Flor, de Carlos Barbosa, destaca o rigor europeu na gestão da oferta. Relata que “uma das coisas que mais chama atenção é que eles não excedem a produção. Preferem que falte produto a deixar sobrar e desvalorizar o mercado. O foco é totalmente na qualidade, não na quantidade”.

Ele também observa que, apesar da imagem idealizada, os desafios fazem parte da rotina por lá. “A gente vê que eles também têm dificuldades, até maiores em alguns aspectos, principalmente por causa do clima. Isso faz a gente perceber que temos vantagens e espaço para evoluir”.

A produtora Marta Bolson Camelo, da Queijaria Bolson&Camelo, de Caxias do Sul, reforça o impacto da experiência. Ela pontua que “são realidades diferentes, mas com muitas possibilidades de adaptação. A gente já tem um trabalho bom, mas percebe o quanto pode melhorar, modernizar e crescer”.

Para Marta, o modelo de organização coletiva é um dos principais aprendizados: “entender como funcionam os consórcios e associações aqui ajuda a gente a não repetir erros e a construir algo que realmente permita evolução para os produtores”.

Formado por queijeiros, técnicos da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI), Emater, Sebrae RS e representantes de universidades, o grupo segue em agenda nos próximos dias, consolidando referências que devem servir de base para estruturar a Indicação Geográfica do queijo colonial da Serra Gaúcha.

No fim das contas, entre paisagens, câmaras de maturação e reuniões técnicas, a principal descoberta talvez seja essa: o valor de um queijo não está apenas no que ele é, mas no lugar de onde ele vem e na história que consegue contar.

Foto: Divulgação | Fonte: Assessoria
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