Liderança feminina consolida novo cenário nas Sociedades de Especialidades Médicas do Rio Grande do Sul

Por Marina Klein Telles

A presença feminina em cargos de liderança nas Sociedades de Especialidades Médicas do Rio Grande do Sul deixou de ser exceção e passou a representar um movimento consistente de transformação institucional. Em diferentes áreas de especialização, mulheres assumem a presidência de entidades científicas, participam ativamente das decisões estratégicas e contribuem para uma Medicina mais diversa, representativa e conectada com os desafios contemporâneos da profissão. No Dia da Mulher Médica, celebrado em 3 de fevereiro, a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) destaca histórias que evidenciam competência técnica, construção coletiva, resiliência e escolhas conscientes ao longo da carreira.

Quebrar barreiras e ocupar espaços de decisão

Dra. Ana Paula Freitas
Associação Brasileira de Medicina de Emergência – Regional Rio Grande do Sul (ABRAMEDE-RS)

Presidir uma sociedade médica em uma especialidade marcada pela pressão constante e pela tomada rápida de decisões tem, para Dra. Ana Paula Freitas, um significado que vai além do cargo. A médica avalia que a própria percepção de ser mulher em um posto de liderança causa impacto, mesmo que seja positivo, ainda carrega resquícios de preconceitos históricos. Em sua visão, o avanço feminino nesses espaços sinaliza um momento de transição, no qual paradigmas antigos começam a ser superados, ainda que não completamente.

Para Dra. Ana Paula, fatores estruturais seguem impactando a trajetória feminina. A sobrecarga social, a desigualdade na divisão das tarefas familiares e o acúmulo de funções profissionais ainda impõem limites objetivos ao acesso das mulheres a cargos de decisão, especialmente em especialidades de alta exigência operacional.

Ao analisar sua própria trajetória, destaca que o maior desafio foi interno, relacionado ao tempo certo de cada fase da vida. A liderança, segundo ela, precisa respeitar escolhas pessoais e contextos familiares, sem ser encarada como uma renúncia.

“Ser mulher e presidir uma sociedade médica hoje significa reconhecer que estamos em um momento diferente, ainda longe do ideal, mas em clara transformação”, afirmou.

A liderança como consequência de uma trajetória

Dra. Fabíola Perin
Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica – Secção RS (SBCT-RS)

Na Cirurgia Torácica, Dra. Fabíola Perin vê a presidência da Sociedade como resultado natural de um percurso iniciado ainda na graduação, marcado pela vivência no ambiente científico e pelo contato com mestres que ajudaram a moldar sua formação. A convivência com grandes nomes da especialidade reforçou, desde cedo, o senso de pertencimento institucional e o compromisso com a construção coletiva.

Dra. Fabíola destaca que a carreira médica é um caminho permanente de desafios, no qual a superação das etapas formais de formação dá lugar à necessidade contínua de aprimoramento técnico, científico e humano. Nesse contexto, liderar uma Sociedade Médica exige preparo, escuta e visão estratégica.

A confiança dos pares, segundo ela, é consequência direta da consistência profissional e do envolvimento associativo ao longo do tempo, e não de um objetivo isolado.

“Dedicação, seriedade, constância e transparência criam o ambiente para merecer a confiança dos colegas e conduzir os passos da Sociedade”, declarou.

Inspirar lideranças e fortalecer a especialidade

Dra. Penélope Esther Palominos
Sociedade de Reumatologia do Rio Grande do Sul (SRRS)

Para Dra. Penélope Esther Palominos, presidir a Sociedade de Reumatologia do Rio Grande do Sul (SRRS) representa mais do que uma conquista pessoal. O cargo é visto como uma ferramenta estratégica para fortalecer a especialidade no Estado e estimular a participação ativa das médicas nas instâncias decisórias.

Ela observa que muitas profissionais possuem formação, competência e experiência, mas não se veem, inicialmente, como líderes institucionais. A presença feminina na presidência ajuda a ampliar esse horizonte e a naturalizar a liderança como parte do percurso profissional.

O principal desafio de sua trajetória foi conciliar a intensa rotina de trabalho e estudo com as responsabilidades da maternidade e do trabalho doméstico, realidade comum a muitas médicas.

“Meu papel como presidente também é despertar o desejo de liderança em mulheres que nunca pensaram nessa possibilidade”.

Formação, ética e compromisso institucional

Dra. Dóris Swarowski
Colégio Brasileiro de Cirurgiões – Capítulo do Rio Grande do Sul (CBC-RS)

À frente do Colégio Brasileiro de Cirurgiões – Capítulo do Rio Grande do Sul até o final de 2025, Dra. Dóris Swarowski defende que a liderança institucional deve ser compreendida como parte integrante da carreira médica, construída ao longo do tempo por meio do envolvimento associativo e da assunção progressiva de responsabilidades.

Sua trajetória na entidade não foi planejada como um objetivo isolado, mas resultado de uma participação contínua, baseada na confiança dos colegas e no compromisso com o fortalecimento da instituição. Para ela, liderar exige preparo técnico, visão estratégica e capacidade de trabalhar de forma coletiva.

Dra. Dóris ressalta ainda a importância de uma formação ampla, que vá além da técnica cirúrgica, incluindo gestão, liderança de pessoas e planejamento institucional.

“A liderança se constrói com formação contínua, compromisso institucional e gosto por servir”, pontuou.

Escrever a história da Radiologia com rigor e persistência

Dra. Carol Fernandes J. S. da Cunha
Associação Gaúcha de Radiologia (AGR)

Segunda mulher a presidir a Associação Gaúcha de Radiologia desde sua fundação, Dra. Carol Fernandes J. S. da Cunha avalia que sua gestão carrega um simbolismo adicional ao coincidir com os 55 anos da entidade. Para ela, ocupar esse espaço significa contribuir ativamente para a história da Radiologia gaúcha e para o fortalecimento institucional da especialidade.

A trajetória até a presidência foi marcada pelo ingresso gradual na diretoria e pela participação constante nas atividades associativas. Nesse percurso, o maior desafio foi a gestão do tempo, conciliando a intensa rotina médica com as demandas institucionais e a maternidade.

A médica radiologista destaca que a presença feminina na liderança reforça a importância da persistência e da organização como ferramentas essenciais para a atuação associativa.

“Dedicação, persistência, foco e rigor científico são essenciais para conquistar a confiança dos pares”, listou.

Resiliência feminina em uma especialidade cirúrgica

Dra. Betina Vollbrecht
Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional RS (SBMRS)

Presidir a Sociedade de Mastologia tem, para a médica Betina Vollbrecht, um significado que une responsabilidade científica e valorização da mulher em posições de liderança. À frente de uma especialidade cirúrgica historicamente associada ao universo masculino, ela observa que o preconceito ainda se manifesta, exigindo preparo emocional, persistência e dedicação contínua.

Ao longo de sua carreira, Dra. Betina destaca que a qualificação técnica e o compromisso com o estudo foram fundamentais para consolidar sua atuação profissional e institucional. A liderança feminina, nesse contexto, assume também um papel simbólico de transformação.

Para ela, ocupar cargos de decisão contribui para ampliar referências e abrir caminhos para outras médicas.

“Quando uma mulher avança, nenhuma de nós retrocede”, declarou de forma categórica.

Liderar com autenticidade, ciência e escuta

Dra. Denise Finochiaro Sarti
Colégio Médico de Acupuntura – Secção RS (CMA-RS)

Na Acupuntura, Dra. Denise Finochiaro Sarti entende a presidência como um compromisso que ultrapassa o aspecto individual e se conecta com a defesa de uma prática médica que integra ciência, tradição e cuidado humanizado. Liderar, para ela, significa sustentar uma presença qualificada em espaços historicamente desafiadores.

Entre os principais desafios estão o reconhecimento constante da competência, o equilíbrio dos múltiplos papéis assumidos pelas mulheres e a necessidade de liderar com autenticidade, sem abrir mão da sensibilidade. Dra. Denise destaca que pedir apoio e estabelecer limites faz parte de uma liderança madura e consciente.

Ela avalia que cada mulher em posição de liderança amplia o horizonte para outras que virão depois.

“Não precisamos ser perfeitas, precisamos ser reais, presentes e resilientes”, posicionou-se.

Foto: Divulgação | Fonte: Assessoria
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