Da panela artesanal ao parque fabril às margens da BR-386, em Bom Retiro do Sul, na região do Vale Taquari, distante 105 Km da capital gaúcha, a trajetória da Salva Craft Beer acompanha o amadurecimento do mercado cervejeiro premium no Sul do país. Fundada oficialmente em 2016 pelo administrador João Luís Giovanella, a marca gaúcha encerrou 2025 com 111 premiações nacionais e internacionais e uma capacidade instalada de 500 mil litros por mês, números que a colocam entre as mais premiadas do mundo no período.
O levantamento reúne os principais campeonatos do calendário cervejeiro, entre eles World Beer Cup, World Beer Awards, Brussels Beer Challenge, International Beer Challenge, European Beer Star, Brazilian Beer Awards, Concurso Brasileiro de Cervejas, CBC Brasil, Brasil Beer Cup, Copa Cerveja Brasil, Copa Sul-Americana de Cervejas, além de outras competições relevantes que analisam milhares de rótulos todos os anos.
No mês de agosto/2025, cervejaria gaúcha alcançou um feito histórico no World Beer Awards 2025, em Londres, um dos mais prestigiados concursos cervejeiros do planeta. A cerveja APA (American Pale Ale) foi consagrada como a melhor do mundo em sua categoria, colocando a cidade de Bom Retiro do Sul, o Rio Grande do Sul e o Brasil no mapa da excelência cervejeira internacional.
Inovação que gera inclusão: portfólio 100% sem glúten
No meio de 2025, a Salva anunciou um dos avanços mais inclusivos do mercado: todos os seus rótulos agora são oficialmente sem glúten. A mudança foi possível graças ao uso de uma enzima especial que quebra o glúten durante a produção, permitindo manter receita, perfil sensorial e qualidade inalterados. Antes do anúncio, foram realizados seis meses de testes laboratoriais contínuos para garantir segurança e repetibilidade do processo.
A decisão nasceu de um pedido de um amigo celíaco do fundador e evoluiu para um compromisso de inclusão. “É muito mais fácil transformar a fábrica inteira do que correr o risco de contaminar um único rótulo. Agora mais pessoas podem brindar. A cerveja ficou ainda mais leve, com drinkability maior, ganhou todo mundo”, explica João Giovanella.
A fábrica, com 2.500 m² em Bom Retiro do Sul, passou por ampliações recentes que elevaram a escala e a eficiência operacional. Sistemas de refrigeração e envase foram modernizados, reduzindo perdas e garantindo maior estabilidade produtiva. O movimento ocorre em um momento de segmentação do consumo no Brasil: enquanto o mercado de massa tende à estabilidade, o nicho artesanal e premium mantém expansão, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste.
No Rio Grande do Sul, a Salva afirma deter entre 25% e 30% de participação no segmento artesanal, apoiada em um portfólio que combina rótulos premiados e identidade regional. Entre eles, a linha “Bairrista”, que dialoga diretamente com o público gaúcho e ganhou nova fase neste verão. A marca relançou a latinha da premiada cerveja “Bairrista” em pontos estratégicos de varejo, incluindo a maior rede supermercadista de Santa Catarina, o Supermercado Angeloni, reforçando a ofensiva comercial no estado vizinho.
A aposta catarinense é central na estratégia de expansão. A empresa projeta crescimento de 15% em Santa Catarina em 2026, com meta de alcançar 10% de participação no mercado local. A ampliação da cobertura de distribuição e o fortalecimento da presença em grandes redes varejistas integram o plano.
Giovanella, que iniciou a produção caseira após viagem à Alemanha em 2007, transformou o hobby em negócio estruturado. Ex-presidente da Associação Gaúcha de Microcervejarias (AGM) e atual presidente do Instituto de Formação de Líderes (IFL) de Lajeado, ele também atua na coordenação da Câmara de Bebidas Regionais. No setor, é reconhecido pela defesa da profissionalização e pela busca de diferenciação técnica, foi responsável pelo primeiro lúpulo orgânico certificado no Brasil.
Para o empresário, o ciclo de premiações consolida um processo iniciado com investimentos industriais. “Os prêmios validam nossa consistência técnica. Eles chegam no momento em que ampliamos a fábrica e reforçamos processos. Qualidade e escala precisam caminhar juntas”, destaca Giovanella.
Expansão nacional com sotaque gaúcho
A estratégia para os próximos anos combina expansão geográfica e preservação da identidade regional. São Paulo e Rio de Janeiro aparecem como prioridades no radar comercial, sem perder de vista oportunidades no Centro-Oeste. “Queremos consolidar a Salva como uma das principais cervejarias independentes do país, mantendo a essência gaúcha”, diz.
O desafio, segundo ele, é crescer sem descaracterizar a proposta original. Em um mercado cada vez mais competitivo, onde grandes grupos disputam espaço com marcas locais, a diferenciação passa por portfólio consistente, inovação, como a série experimental “Quintas-Feiras”, e conexão cultural com o consumidor.
Em 2026, a Salva pretende transformar desempenho em marca histórica: buscar novos recordes de premiações, ampliar o portfólio com novas opções cervejeiras e consolidar presença nacional, tudo isso mantendo a identidade regional que a levou do fogão caseiro ao topo do ranking mundial, sem nunca perder sua essência gaúcha.


